maio 05, 2004

Cegueira ideológica

por Rodrigo R. Pedroso

Em recente artigo publicado na internet, o Dr. Emir Sader, professor da USP e da UERJ, proporcionou a nós todos um característico exemplo do nível de cegueira a que é levada a mente humana, quando ela se deixa conduzir e viciar por aquilo que poderíamos chamar de pensamento ideológico, ou modo ideológico de ver as coisas.

Toda ideologia é feita para o enfrentamento, para a luta política. "A política é a continuação da guerra por outros meios", como diria Carl Schmidt. E portanto, toda ideologia, de direita ou de esquerda, "conservadora" ou "progressista", precisa eleger um inimigo. É imperioso que o inimigo, uma vez escolhido, perca todas as suas características próprias de pessoa humana concreta, para ser reduzido a um estereótipo. Descaracterizado como gente, reduzido à condição de caricatura humana, o inimigo está pronto para que sejamos dispensados de ter para com ele aquele respeito que só devemos a uma pessoa.Está pronto para ser injuriado, caluniado, agredido e fuzilado. O pensamento ideológico é, portanto, inimigo da compreensão e da comunicação. Ao invés de abrir-se à compreensão do outro, o pensamento ideológico supõe já haver compreendido inclusive a sua mais íntima essência, que é sempre maligna. Não importa o que faça, o inimigo sempre o faz com as mais perversas intenções. Ele é incapaz de conceber o menor gesto de bondade, e deixá-lo à solta constitui sempre um perigo público.

Em outras palavras, o pensamento ideológico coloca o sujeito na posição de Deus (pois só Deus conhece de antemão as intenções e o profundo do nosso coração) e reduz o outro à condição de demônio (pois só o demônio é capaz de pecar mortalmente em tudo o que faz).

No artigo "Política e religião em livros de ficção cristã", o prof. Emir Sader exibe o quanto a ideologia laicista, patrimônio comum do liberalismo e do socialismo, viciou a sua compreensão do fenômeno religioso. Neste, o eminente professor não consegue enxergar nada de maior senão um perigo para a democracia, a qual deve estar acima de todas as crenças. É bem possível que ele não tenha atinado para o significado profundo do que estava dizendo: sustentar que qualquer forma de regime político deva estar acima das religiões é, ipso facto, colocar o poder político no lugar reservado a Deus como valor supremo e absoluto. Em outras palavras, "a César o que é de Deus".

Deixando supor que conhece perfeitamente a essência do fenômeno religioso, o eminente professor afirma que "a religião se funda em crenças, em dogmas e em fé -- fatores subjetivos que são incapazes de dar fundamento a relações políticas democráticas". Ao dizer isso, o professor revela desconhecer a religião natural, que é uma religião sem dogmas, que compreende todas as verdades que dizem respeito a Deus e podem ser universalmente conhecidas pelo homem, unicamente à luz de sua razão natural, sem o concurso da fé ou da Revelação. Com efeito, a existência de Deus pode ser metafisicamente demonstrada, como foi realizado por Aristóteles e Santo Tomás de Aquino. Uma obra excelente a respeito dessas demonstrações é "O homem perante o Infinito", do filósofo brasileiro Mário Ferreira dos Santos, que ainda se pode encontrar em sebos, enquanto alguma editora não resolver prestar à Pátria o serviço de republicar os escritos desse original pensador.

Um outro efeito do pensamento ideológico é a perda do sentido das proporções. Assim sendo, o prof. Emir Sader aponta como um perigo "assustador" o recente sucesso de livros de ficção cristã escritos pelo pastor batista Tim LaHaye. Semelhante êxito de vendagens seria o prenúncio do Estado fundamentalista que estaria para se erguer na América, alerta amedrontado o professor. Creio que ele pode ficar sossegado: por mais que LaHaye venda livros, não acredito que ele possa reunir a força política necessária para revogar a Emenda n. 1 da Constituição norte-americana, que estabelece a laicidade do Estado, nem que tenha a menor intenção de fazer isso.

É curioso notar que a própria informação que Sader nos fornece a respeito do livro é capaz de colocar no ridículo o seu temor de um surto de discriminação religiosa em larga escala. Segundo afirma, na ficção de LaHaye o Anticristo se incorpora no Secretário-Geral da ONU, cria um governo mundial e impõe ao mundo todo uma única religião. Qualquer observador isento diria que o livro é um libelo contra a imposição religiosa por parte do Estado.

A seguir, o prof. Emir Sader tenta passar a idéia de que o cristianismo -- vejam só! -- não é muito melhor que o nazismo. Segundo o emérito professor, os livros de LaHaye, que vendem mais que as memórias de Hillary Clinton e os contos de Harry Potter, teriam um conteúdo "intolerante e racista", com enredos violentos. Confesso estar impressionado com a paciência do prof. Emir Sader, em ler os doze volumes da coleção escrita por LaHaye, para assim chegar a conclusões tão graves com conhecimento de causa. Quanto a mim, que não tenho o menor interesse em ler as obras apocalípticas do dito pastor, pude apurar que a pior crítica que se faz aos livros é a de serem repetitivos. Até onde sei, o prof. Sader é o primeiro a apontar-lhes a pecha de racismo.

Ainda em relação às acusações de racismo, causa espécie o fato de Emir Sader, que sempre atacou o Estado de Israel, vir a público defender o povo judeu contra as obras de ficção supostamente anti-semitas de LaHaye. E se essas obras racistas e intolerantes são bastante similares e paralelas aos discursos de Bush, conforme assevera o Prof. Sader, como se pode explicar a presença em seu governo de uma Condoleeza Rice ou de um Collin Powell, ou as relações estreitas que Bush guarda com o governo israelense?

Levar o artigo escrito por Sader a sério só pode levar a infindáveis contradições. Com efeito, não se trata de uma apreciação isenta e objetiva dos fatos, mas de um discurso essencialmente ideológico que, de modo consciente ou não, procura deformar e caricaturizar o cristianismo e a religião para torná-los odiosos à opinião pública.

Posted by oitocolunas at maio 5, 2004 01:53 PM